Aborto tem sido um tema quente na visita do Papa.O ministro da Saúde do Brasil, José Gomes Temporão, foi aconselhado a parar de falar sobre a legalização do aborto, um tema que tem marcado a viagem do Papa Bento XVI ao país. "Gosto de falar e de ouvir, mas recebi recado para falar menos", confirmou aos jornalistas Temporão, que nasceu em Portugal. O ministro defende a realização de um referendo sobre o tema e diz que este deveria ser considerado "um assunto de saúde pública". .No seu primeiro discurso em São Paulo, onde chegou na quarta-feira, Bento XVI tinha expresso o desejo de que a Igreja latino-americana reforçasse a sua identidade "promovendo o respeito pela vida desde a sua concepção até ao seu declínio natural". Uma fórmula que resume a condenação do Vaticano ao aborto, à eutanásia e às manipulações genéticas. Na quinta-feira à noite, perante quase 40 mil jovens reunidos no estádio de Pacaembu, pediu também que estes fossem os "promotores da vida". .Quando aguardavam a chegada do Papa ao recinto, os jovens tinham lançado o grito "Sim à vida! Somos contra o aborto!". Contudo, nas principais cidades brasileiras, grupos de mulheres favoráveis à liberdade de escolha e associações de homossexuais manifestaram-se a favor de um Estado laico. "A Cidade do México autorizou o aborto, Portugal também, em vários países da Europa a união entre pessoas do mesmo sexo foi aprovada. O programa escondido do Papa é evitar que o mesmo aconteça na América Latina", afirmou à AFP um dos organizadores. .Os males do Brasil.Além do apelo à vida, o Papa enumerou aos jovens reunidos no estádio os grandes males que afligem o Brasil: a violência, a droga, a corrupção, a discriminação, a banalização dos comportamentos dissolutos e a devastação da Amazónia. E pediu aos jovens que se envolvessem mais na sociedade para os combater. A juventude deve ser "exemplo de conduta cristã na sua vida profissional e social" e trabalhar para "a construção de uma sociedade mais justa e solidária, reconciliada e pacífica". .Noutro registo, o Papa fez um apelo à castidade e à fidelidade. "Deus vos chama a respeitar o namoro e o noivado, pois a vida conjugal, que está destinada aos casados, é somente fonte de felicidade e de paz na medida em que souberdes fazer da castidade, dentro e fora do matrimónio, baluarte das esperanças futuras", pregou. .Também na missa de canonização do primeiro santo brasileiro, António de Sant'Anna Galvão, Bento XVI reiterou esta mensagem. "O mundo precisa de vidas limpas, de almas claras, de inteligências simples, que rejeitem ser consideradas criaturas objecto de prazer. É preciso dizer não aos meios de comunicação social que ridicularizam a santidade do matrimónio e a virgindade antes do casamento", disse, apelando à resistência ao hedionismo. Na multidão, alguém levava um cartaz de protesto onde se lia: "Eu uso camisinha", isto é, preservativo..Na cerimónia, que reuniu mais de um milhão de pessoas no Campo de Marte, o Papa proferiu a tradicional fórmula de canonização, após ouvir a breve biografia do santo e o relato dos seus milagres, efectuada pelo cardeal português José Saraiva Martins. No final da missa, Bento XVI abençoou Sandra Grossi de Almeida e o filho Enzo, de 7 anos, cujo nascimento e sobrevivência foi o milagre que possibilitou a canonização de Frei Galvão. .Conferência.Hoje, o Papa presidirá à sessão inaugural da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e Caraíbas, que reúne 166 bispos e cardeais de 22 países da região, no santuário de Nossa Senhora da Aparecida (padroeira do Brasil). Neste encontro, deverá dar as suas orientações para a "política" da Igreja no continente - nomeadamente no que diz respeito à perda de fiéis para as igrejas pentecostais e evangélicas. .Antes de partir de helicóptero para o santuário, o Papa reuniu-se ontem à tarde (noite em Portugal) com os bispos brasileiros. com agências